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segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Literatura Lisérgica

Aqui estão quatro contos que se parecem muito entre si em sua estrutura lúdica. Ambos nos remetem ao ambiente do sonho e da fantasia, permeiam um mundo criado pelas alucinações de nossa própria mente. Foram escritos no ano de 2003, como últimos remanescentes da série de Contos Lisérgicos e pertencem a um mundo infinito e reluzente que brilha e existe dentro de nós. Boa Viagem!!

Ei, Soldado...

O Soldado se liberta de seu fardo sujo, sua roupa gasta, sem brilho e sem cor, e ao mesmo tempo se liberta da marcha silenciosa e uniformizada. Ele corre contra todos os sentidos, corre, corre sem fim, desesperadamente, como se de repente tivesse sido fulminado por um fogo sem luz. Ele corre intensamente por minutos, contrário a direção de todos os pacientes soldados, corre contra eles até perceber que a marcha é infinita, que o fardo é bem mais resistente e que aquela malha vedada força contra o seu peito e dificulta sua tentação de respirar.
O Soldado então sente tontura, uma certa falta de ar e cai no chão agonizante, sem entender porquê aquele exército e porquê aqueles soldados a sua volta lhe olham com tanta estranheza e paciência.
A marcha é eterna e infinita, restrita ao tédio e ao sacrifício. Mas o Soldado não entende porquê. O Soldado não sabe quem determinou que naqueles campos floridos sob a brilhante luz do Sol toda sua vida seria aquela marcha e aquele fardo que o prendem em uma única direção.
Ele, agonizante e ajoelhado, levanta o seu rosto e olha a sua volta tentando ver o rosto de outros soldados.
Eles tem o mesmo rosto, a mesma expressão, o mesmo hipnótico sorriso.
O Soldado grita sem respiração e desesperado:
_Quem ordena este exército? Quem ordena este exército? _diz numa voz bufante e fanhosa.
Alguns soldados olham-no estranhos e dizem algumas palavras enquanto suas cabeças inclinam levemente. Os seus lábios movem, o Soldado tem certeza, mas o ar continua surdo e o vento sopra quieto, eternizando a surdez das vozes.
O ar falta-lhe mais uma vez, e dessa vez é quase fatal. O Sol se transforma em um azul escuro, e a cor transforma todas as flores do campo.
O que é aquilo? O que é isso tudo? Pensa o Soldado olhando a sua volta para um mundo insanamente selvagem.
Mas ao mesmo tempo que as cores se alteram, altera-se também a marcha e a expressão de todos os outros soldados. Os soldados não tem mais o seu sorriso hipnótico, tem agora na face a pálida expressão das caveiras. E ao mesmo momento que tudo se torna amedrontador nasce uma esperança no Soldado que começa a sentir o início de uma ventania e algumas vozes distantes que estão o chamando. O Soldado começa a se sentir louco, e então um pouco melhor.
_Soldado, venha conosco! _gritam alguns outros Soldados que passam correndo, estes cada um com o seu rosto_ Venha, temos de correr! Os generais estão atrás de nós!
Num alívio de um pensamento imediato o Soldado se levanta e começa a correr junto com os outros homens fardados em meio as caveiras e a luz escura do Sol que transfigura este estranho ambiente selvagem.
_Os generais?! _exclama o Soldado na corrida escura ao infinito. _Quem são?
_São os donos deste exército. _diz-lhe uma mulher loira com um rosto amigável. _São os comandantes dos caveiras desde muito tempo, seus pais eram donos do exército, e os pais de seus pais, e os pais...
_Oh! _espantou-se o Soldado enquanto a tempestade aumentava e a mulher lhe parecia mais distante. _Mas porque isso?
Todos os homens com faces continuavam a correr por entre as centenas de caveiras. Centenas, milhares que iam até o infinito...
_Eu não sei! _respondeu a loira mulher _Ninguém conseguiu entender isso até hoje. Parece que é uma fome de poder estranha, uma necessidade de dominar mais e mais, e mais e mais, na falta de alguma coisa... essencial.
O Soldado balançou a cabeça num sinal afirmativo enquanto expirava intensamente.
_Essencial... _repetiu ele, e mais uma vez a ventania tornou a aumentar.
_Parece que a natureza está a nosso favor! _brandiu uma voz grossa de um homem que estava às costas dos dois. Era um homem espirituoso e de cabelos castanhos.
O Soldado continuou a balançar o seu pescoço.
_Mas porque todas essas pessoas são caveiras? _perguntou com a dor entorpecente da infâmia pesando em sua cabeça.
_Ora... _ponderou a mulher loira.
_É difícil, é doloroso. _ completou o outro Soldado, espirituoso.
_Não é todo mundo que consegue despertar dentro de si a questão. Que aceita trocar o que existe pelo que é vazio. _recitou a mulher _Muitas pessoas não tem a sensibilidade da natureza. Elas ficam presas aos movimentos que enxergam a sua volta, ficam atadas a sobrevivência. Pois todos sabem que quem contraria a marcha vai ser pego pelo poder do general, alguns contrariam mas no primeiro sufoco desistem. Você até que tem reagido bem...
O Soldado sorriu um tanto cansado. Ele, no entanto, estava pegando o ritmo da corrida. Só não sabia aonde se daria aquele infinito, qual era o destino dos fugitivos Soldados com rosto.
_Penso que por algum tempo_ disse o homem de cabelos castanhos _teremos que continuar a correr.
_Vocês estão correndo a muito tempo? _perguntou o Soldado, noviço naquele transfigurado mundo, tenebroso e preternatural.
_Sim, _respondeu a mulher _mas nem sempre estamos a correr contra a corrente.
_Ás vezes paramos e ficamos a divertir e confundir os generais sobre a vida, que nos assistem sentados em seus tronos no alto de suas muralhas. _acrescentou o outro Soldado _Felizmente podemos fugir a arte.
O Soldado sorriu um grande sorriso, ele enquanto marchava já tinha ouvido falar sobre a arte. Tinha conhecido a arte e sorrido maquinalmente na artificialidade de seu agora antigo mundo.
_Mas agora eu acredito que teremos que continuar correndo por um tempo. _gritou a mulher na ventania _Acho que temos que juntar o maior número de Soldados possível, para que a natureza nos ajude em tempo. Antes que os generais consigam de vez destruir a natureza.
O Soldado ficou feliz, não pela vida mas pela esperança. Como seria bonita uma vida com a natureza! Uma vida sem caveiras, um mundo de homens com rosto que sentissem a ventania e a realidade. Que sentissem, assim como agora ele sentia, a essência brilhando multicolorida no centro de seu corpo, de sua mente, de seu espírito. Ainda bem, ele tinha que continuar a correr enquanto era tempo, tinha que chamar outras pessoas, tinha que contar sobre o universo da natureza.
_Ei, olha ali! _disse a mulher loira _Ei, Soldado...

Escritor das folhas soltas

O selvagem tribal chama a atenção de seu amigo, não tão observador mas um pouco mais civilizado, um homem da aristocracia, com uma ligeira cotovelada e uma indicação que ele, informal, aponta com o beiço. O indígena chama a atenção de seu amigo, em meio a ventania que os assola naquele jardim de praça, sobre o homem num banco próximo que medita com olhos centrados no infinito enquanto parece distraído a todas as folhas de seu caderno que voam e se perdem pela praça. O homem apenas se mantém tranquilo, inabalável, indistinto sobre qualquer forma que a sua linhagem deveria representar. O selvagem surpreso, em muito até impressionado, pergunta ao aristocrata palavras que parecem estar rodopiando dentro da sua cabeça:
_É maluco, não é?!
O homem eriça as sombrancelhas de forma incitativa.
_É escritor.
O indígena faz que sim com a cabeça, talvez irresumível a poucos milhares de perguntas.
_E porque deixa voar todos os seus textos? _disse se sentindo atrevido mas considerando inevitável a pergunta_ Qual é o sentido de se escrever desse modo?
_Talvez seja apenas um artista. _respondeu o Lord em tom frio_ Seja um desses loucos visionários do mundo. Talvez tenha escrevido tanto que deixa suas folhas voarem para que se espalhem pela sociedade. Ou talvez germinem na terra e venham a se tornar uma planta. _disse insinuante.
O indígena olhava ainda hipnotizado para a informação que ia se perdendo no vento e nos cantos do parque. A todo momento novas folhas se soltavam do caderno e voavam para mais longe e com mais velocidade.
_Vamos ajudá-lo. _disse se levantando, talvez ainda desse tempo de correr e juntar todas as folhas, pensava.
_Deixe o artista criar. _falou o Lord barreirando-o com o braço_ Deixe a arte livre para criação. Não vê, ele escreve mais. Escreve novos. Deixe que os antigos se percam, afinal, não quer você também que alguém lhe aprisione.
O índio olhou-o sem entender. O homem aristocrata continuou se direcionando à criação.
_Talvez aquelas tenham sido palavras sofridas, miseráveis como o desamor. O criador entende bem da arte quando a faz, ele está vivo num mundo infinito. A própria vida teve muita arte para se criar, mas isso só porque não tinha ninguém que definisse o seu papel, o que deixou-a livre para o amor.
_Que pena! _exclamou_ se alguém tivesse juntado as folhas da vida, talvez hoje entendêssemos da criação. Talvez pudéssemos compreendê-la...
O Lord novamente eriçou o sombrolho.
_Talvez amigo... mas você conhece alguém que já tenha definido a arte. A arte pode ser estudada, mas não aprisionada como pretendem fazer alguns conceitos. E embora a vida seja arte também, ainda existem homens que insistem em aprisioná-la, e isso enfim é o que causa desamor. Já percebeu quanta arte há na natureza?
O selvagem balançou a cabeça positivamente.
_Então deixemos que aquele homem faça a arte com o auxílio do vento. É bom quando começamos algo que não sabemos onde vai parar. Tal é a arte em sua maravilha. Divina e talvez mais precisa, quando se trata de levar amor para os homens, não devemos nos reter em limites. Até a guerra em seu fervor tem também os seus benefícios. Algumas coisas tinham que ser mudadas, outras ainda terão. Além do mais... _calou-se o Lord nesse momento, se retendo numa longa pausa. O indígena instigado insistiu sobre o doutor.
_Além do mais o quê? Além do mais o quê?
O aristocrata falou com toda paciência apesar de tudo.
_Além do mais, catar suas folhas seria acabar com a nossa própria história. Ele é nosso artista, é nosso criador. _e olhando para a expressão longa de dúvida no rosto do indígena, o doutor ainda complementou_ Sim, ou acha que um Lord e um índio conversariam num banco de praça sobre uma ventania fria dessas. Somos também fictícios. E aquele homem cujas folhas voam é o nosso autor. Ele olha contra o vento porque mesmo se olhasse para a nossa direção ele não estaria nos vendo, estaria nos imaginando. Por isso, prefere se inspirar visionando a natureza...
De repente o selvagem pareceu inquieto. Olhou a sua volta e observou que não havia mais do que o escuro ao redor daquele jardim. Não existia nada daquilo, ele era mesmo apenas uma criação. E talvez fosse ou talvez não fosse nem independente. Talvez suas vontades fossem sentidas porque foram apenas decididas pelo criador. Ó, que grandes questões tinha ele agora sobre a liberdade da vida? Surgiam suas vontades pela lógica do amor e do medo, ou foste alguém que o manipulava feito marionetes que introjetou tantas questões nele? Ó meu Deus, era ele ele mesmo, ou um outro?
Diante do próprio criador, nada mais coerente do que obter dele a resposta. O índio então levantou-se decidido e a passos firmes foi caminhando em direção ao escritor das folhas soltas. Seu homem, artista e criador.
_Homem, revele-me a verdade, a luz!
Nisso o escritor lhe direcionou o rosto feliz e olhou-o quase como se pudesse vê-lo. Sorriu. Seus olhos brilhavam tanto como nunca vira outro igual. Levantou o braço tateando o vácuo e num gesto supremo de orgulho proclamou:
_Fim!
Nesse mesmo momento desapareceram todos, o homem, o jardim e o índio. Depois disso, restaram somente as folhas soltas.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

A Rosa da Existência

A Rosa da Existência

_Ó bela rosa! _admirei eu sob o círculo de meus sentidos. Rebaixei um pouco meu corpo e me agasalhei entre as penas de minhas asas. Aproximando o meu bico mais um tanto pude sentir o sabor agradável e o odor da pureza e da umidez do orvalho. _Estou um pouco cansado de voar hoje. _confessei a ela _Voar é tão suave, é tão infinito. Ah... _suspirei _O vento dando força as suas asas, o céu sobre a sua cabeça, infinito, imenso, e o horizonte colorido sempre distante, sempre, como a promessa da eternidade reluzindo ali entre o céu e o mar. Ás vezes bem amarelado, outras tonado em rosa, tantas outras tão claro, límpido! Enquanto o vento escorre por meu corpo e de vez toda razão de meu espírito é levada para longe. Vibrando no cosmo eu somente sinto a liberdade... Mas, ó rosa! _disse eu mais uma vez fazendo gesto de fadiga.
Cai-me sobre o cansaço de meu corpo.
_Por vezes me lembro dos humanos. A terra é tão livre quanto o ar, os sentidos, as visões, são os mesmos. Porque os homens não se fazem livres como os pássaros? Porque vivem a competir, ao invés de dividir e compartilhar? Creio, rosa, que a eles falta metafísica como à temos nós. Não nos importamos pelas coisas por volume ou espécie, importa vermos de que cores as coisas são feitas, com que brilho ela nos invade. Se é suave cor de amor, se vazio liberdade... Nunca nos importamos com a fadiga. O cansaço é o descanso do prazer. _suspirei _Livre, livre infinito...
Olhei-a mais uma vez, pûs meus olhos em seu interior. Ó, como!? A rosa era tão bela, tão terra, tão universo. E, no entanto, não tinha nem uma gota de contradição em si. Era vida e era ato. A elegância de nascer e de morrer, de morrer... viver é toda a simplicidade de sua existência. E morrer... Existia para ela o mesmo destino ao qual não se pode fugir, o tempo andava de trás para frente, para ela e para todos nós, na contagem regressiva a qual não se pode fugir, e ainda assim, naturalmente, na primavera ela insistia em desabrochar. Em viver, com existência impressionante e inexplicável, estar sendo ela mesma a cada momento. Esgotando suas cores no universo, para vida, que não lhe duraria para sempre... Olhei inquieto para duas ou três direções rapidamente. O cansaço me passara, meu espírito vibrava para a vida novamente. E quanto aos humanos... a cor deles era tão bonita. E eles iludidos por poder, o poder meus caros, é o prazer que sobra e mal satisfaz... e por enquanto, deixe esses para lá. Alçei voô novamente.

O Sonho

O Sonho




Acordei docemente com o brilho do Sol em meus olhos. Até então os pensamentos me vinham como em sonho. Aquela prequiça, o cheiro da indecisão de quem tem um milhão de planos e um dia inteiro pela frente. O cheiro do recomeço. O cheiro do novo dia. O cheiro da grama úmida, o ch …
Grama úmida? Sol nos olhos? Como posso sentir calor e a brisa suave se é inverno e nem estou nos trópicos?
Abri os olhos sobressaltado! Era verdade. Fazia muito calor, embora eu não suasse, e o vento passava delicadamente me refrescando e me provocando leves arrepios. Eu estava deitado numa rede presa à dois coqueiros que me sombreavam, e abaixo de mim descia um longo vale grameado que cheirava a orvalho no amanhecer!
Desentendi. Sério, desentendi profundamente! Onde tinha ido parar minha cama, as paredes de madeira do meu quarto? As ruas? Minha vista para a biblioteca nacional? Onde estava toda a França? Nada. Só verde e natureza. Aliás, muito verde e muita natureza, mas nada de gente! Não havia uma só alma viva independente da direção que eu olhasse. Só o silêncio, o pio das aves e o sopro do vento.
A atmosfera também estava estranha. Minhas vozes, quando eu tentava falar, pareciam mudas, sem som. Mas ao mesmo tempo conseguia ouvi-lás ecoar gritantemente por todo o vale.
Acho que andei por muitas horas. Subia colinas, atravessava imensos campos, me perdia entre ás árvores … o Sol continuava à pino, como se estivesse sempre ao meio dia. Mas quando tentava olhá-lo, nunca conseguia. Sua luz parecia vir de todos os lugares, mas nenhum em específico. Acima de mim, só o céu azul para onde quer que eu olhasse.
Pensei que pudesse estar em um sonho. Que aquele era um paraíso com o qual estava sonhando, e mais algumas horas e eu despertaria com algum barulho no mundo lá fora e pronto! Tudo voltaria ao normal! Vestiria minhas calças, prepararia meu café, tomaria meu ônibus e antes que pudesse pensar em mais outra coisa, já estaria na frente da mesa do Dr. Bin Laden anotando todos os seus planejamentos diários. Ao meio dia sairia para almoçar com Judith, iriamos ao motel como de costume, ela falaria em compromisso, eu pediria mais um tempo. Diria que eu precisava me organizar, que minha vida estava uma bagunça. E ela ia se cativar com a minha sinceridade. Depois iria ao Pop’s. Encontraria Mart, Frig e Beta. Beberia até me tornar a vontade para falar e quando menos percebesse, já ia estar em casa novamente com a cabeça no travesseiro e a minha manta para me aquecer da fria solidão das minhas paredes. Em breve estaria sonhando de novo …
Novamente olhei a minha volta e dessa vez o silêncio me pareceu insurdecedor. Percebi. Desde quando me apaixonara por aquilo? Desde quando minha vida me parecera boa?
Sempre ocupei meus dias com reclamações, enfrentava as pessoas com a face pálida da mesmice. Dr. Bin Laden à meu ver tinha às faces do inferno. Judith por poucos momentos me era a salvação, aquele sorriso, aqueles olhos. Gozava de incessante prazer ao seu lado e até me divertia em almoçar em sua companhia. No quarto de motel meus olhos reviravam de orgasmos múltiplos, multiplicados. Eu queria tê-la para mim, porém minha privacidade não me deixava. Odiava ter que deixá-la e ver nos seus olhos que a cada dia, minha indecisão à afastava mais de mim. E odiava não ter nenhuma decisão dentro de mim. Depois disso, nada me parecia pior. O resto do dia parecia monótono e eu andava muito insatisfeito com o mundo. Odiava a prisão que era viver na babilônia, ter de seguir muitas regras, andar em linhas, trajetos. Ser espectador diário da miséria e da violência desumana que é o então mundo real. Lá fora! E enquanto isso eu aqui sonhando…
Provavelmente é com isso que devo estar sonhando. Com um mundo sem Dr. Bin Laden, indecisão ou Judith. Com um mundo onde o Sol brilha eternamente, mas a brisa nunca deixa de me refrescar. Onde os campos parecem eternos e não há nem miséria, nem desiqualdade, nem violência, pois nem pessoas há. Um mundo talvez perfeito, mas que ainda penso que alguma coisa deve faltar?
Novamente tentei mirar o horizonte. Estava sentado no alto de um vale, encolhido, sob a sombra de uma outra árvore, estático, onde periféricamente observava a grama, os pássaros e o mar azul sobre minha cabeça. Sabia que teria, quanto tempo quizesse para pensar. E então ali fiquei à pensar por muito tempo, talvez horas, mas já isso não posso afirmar.
Pensei sobre muitas coisas, mas não me lembro de nada. Procurava ainda alguma coisa que pudesse faltar naquele divino sonho com o paraíso? Algo que pudesse completar meu sonho, e que talvez me fizesse acordar diferente? Algo ilustre, inusitado, um mistério! Um mistério cabuloso de solução simples porém fantástica? Algo literalmente surreal, que me faltava naquele momento…
Me levantei e fiquei à caminhar por aí enquanto pensava. Andava e calculava. Queria saber de mim mesmo o que eu queria para o mundo. Qual sonho me faltava? O que mais queria eu, daquela doce ilusão?
Foi quando avistei uma pessoa à caminhar muito longe de mim! Desci o vale correndo desesperadamente, atravessei outras florestas, um pequeno riacho, subi novamente a colina ainda em pique devastador e sem me cansar, vi que tinha me aproximado da pessoa. Ela estava de costas, tinha o cabelo comprido e vestia um único e comprido pano branco, que lhe cobria até os calcanhares. Não pude saber se era homem ou mulher, a ondulação do cabelo escuro não me dava a certeza. Enfim, à alcancei.
_Oi! _gritei às suas costas. Ela não se virou.
Tentei me aproximar mais, ver-lhe o rosto. Mas soube, como se sempre soubesse, que nunca lhe veria o rosto. Estava destinado a sempre vê-la pelas costas e jamais me atrever a tocá-la.
_Onde estamos? _perguntei. Minha voz ecoou ainda mais.
_No futuro. _me respondeu um sussuro surdo e eterno.
_No futuro? Achei que estivesse sonhando… _decepcionei. Como poderia o futuro ser daquele jeito? _ Mas onde estão os outros, Judith, Bin Laden, o resto da civilização?
_Eles estão vivendo. Na realidade. Estão no mundo dos medos e dos desafios… Mundo esse que você renunciou.
_Renunciei?! Ei, eu não pedi para estar aqui! _protestei. Fez-se silêncio por um pouco.
_Tem certeza? _me respondeu _ Você não achou que estava sonhando?
_Certo. Mas não quero mais estar no futuro! Quero voltar para o meu mundo. Como que eu faço para voltar a realidade?
_Ora, é muito simples. Tem de assumir os medos e desafios de volta… e se verás onde quizeres.
_Ótimo. E nunca mais verei o futuro?
_O futuro nunca pode ser visto e nem ser tocado. Se me virar, nunca mais saberá como é o presente.
Pensei por um pouco. Talvez pudesse ter ali tudo que sempre quiz? O sonho perfeito, de campos e dias eternos. E uma mulher , talvez uma Deusa, que me pudesse fazer companhia para sempre enquanto ali estivesse, no futuro. Mas num piscar de olhos a verdade desabou sobre mim. Pois se visse sua face, depois, nunca mais poderia rever Judith, Mart, Frig, Beta, ou mesmo o Dr. Bin Laden e a miséria e a violência do mundo. Nunca mais teria medos nem desafios e muito provavelmente, a adrenalina e a indecisão sobre o seu rosto seriam a última vez que sentiria o sangue correr pelas veias. Daí por diante, tudo seria conhecido e premeditado…
_Foi um prazer lhe conhecer, mas tenho que ir. Até nunca mais. _lhe disse e me virei. Pude sentir que estava sorrindo, mesmo ela estando de costas.
Preferi viver, para sempre, no presente.