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terça-feira, 16 de março de 2010

A caminho de casa

Estamos estabelecendo elos com importantes atores da teia da Vida.
Estamos colhendo sementes, conversando com as árvores, andando com os animais.
Estamos reaprendendo a olhar o céu e as estrelas, e a nos comportar como Seres Celestes.
Somos refugiados do pavor de uma nação em desespero. Escolhemos o caminho da perseverança. Temos poucas chances de encontrar uma Terra boa e saudável no futuro.
Estamos de peito aberto e, embora tenhamos medo, estamos certos de que o virá será benevolente e o presente, daqui pra frente, será suor e luz.

Nosso primeiro desafio será encontrar uma terra aonde poderemos cultivar o nosso sonho.
Neste país aonde as pastagens e os latifundios monocultores ocupam 3/4 do ambiente rural será difícil encontrarmos uma terra livre onde possamos viver.
No entanto, persistentes, caminharemos pelas montanhas e vales procurando nossa terra sem mal.
Após dias caminhando, talvez até semanas, encontraremos uma terra aonde poderemos, enfim, chamar de ‘nossa casa’.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

A Casa das Sementes Livres de Aldeia Velha.

Eu sempre fui amigo das sementes.
Pois enquanto eu, livre, voava pelos céus...
Ficava a observar a escravidão e a dor que elas sofriam nas mãos de gananciosos comerciantes de alimentos.

Envenenadas com agrotóxicos altamente perigosos à saúde. Geravam alimentos inócuos, que eram então vendidos as famílias nos mercados, mas que, intoxicados, não podiam gerar novos frutos.
As famílias de agricultores mais pobres ficavam sempre escravas dos agricultores mais ricos, que tinham o controle das sementes. E assim não podiam se tornar produtoras.
Muitas vezes eu mesmo engolia uma semente e transportava ela até um lugar seguro, onde pudesse despejá-la com segurança, à salvo de homens ganaciosos.
Foi por isso que eu fiquei muito feliz quando vi alguns jovens da Escola da Mata Atlântica anunciarem a construção da Casa das Sementes Livres de Aldeia Velha.



Através da conservação das sementes boas, as conhecidas sementes criollas, os agricultores poderiam ter acesso a sementes de qualidade sem ter que pagar nada por isso. Ficando livres para produzirem alimentos muito bons e saudáveis, que pudessem também alimentar outras famílias.
Durante o primeiro ano do projeto foi realizado um curso mensal de introdução às questões agroecológicas, na Escola Municipalizada de Aldeia Velha. Foram abordadas as questões dos remédios naturais (fitoterápicos) feitos com plantas medicinais; das caldas naturais, (remédios contra pragas agrícolas feitos de maneira natural, em contraposição ao uso de agrotóxicos); de introdução a Agroecologia em si; e da importância de um banco de sementes comunitário como garantia da conservação da biodiversidade e do livre acesso as sementes pelos agricultores.
Ao final deste primeiro ano foi iniciada a construção da Casa das Sementes Livres de Aldeia Velha. Em mutirões que contaram com a participação de pessoas de diversas regiões do Estado. Pouco a pouco foi se desenhando a estrutura das paredes de estuque. Com barro e madeira, foi-se moldando o destino das sementes.

A conservação de suas histórias e de suas distintas combinações genéticas é a garantia da continuidade de sua família e de suas raízes ancestrais.
Aliada a conservação das sementes criollas, a Casa das Sementes Livres montou também um telecentro de informática para a disseminação de outras ‘sementes livres’, as sementes digitais do software livre.
Mas o que os softwares livres tem a ver com as sementes crioullas?
Se você não entendeu, preste atenção:
O controle de patentes dos softwares é muito parecido com o que tem acontecido no controle de patentes de sementes transgênicas. O agricultor, ou o usuário de um computador, fica obrigado a comprar a sua mercadoria das grandes empresas, escravo das suas eternas inovações tecnológicas.

Com os softwares livres, os usuários de computadores ficam livres para criar e recriar seus softwares, aprimorando eles livremente apartir de seu uso contínuo. E não precisam pagar nada por isso.
Com as sementes crioullas, os agricultores tem acesso a sementes de qualidade, selecionadas milenarmente apartir de seu uso. E não precisam pagar nada por isso.
Dessa forma, a Casa das Sementes Livres de Aldeia Velha ajuda na criação de alternativas sustentáveis de conservação ambiental, possibilitando que todos tenham acesso gratuíto a cultura, ao conhecimento e às ferramentas de transformação social necessárias para uma efetiva mudança nos padrões de produção e consumo da sociedade.
Junto com a conservação das sementes crioullas também é importante manter um modo de plantio integralmente orgânico. Para que as sementes sejam preservadas com a menor influência química possível.
Até eu já fiz minha casa dentro da Casa das Sementes, e vou ficar junto dos meus amiguinhos...

E agora, finalmente se iniciará o Curso de Inauguração da Casa de Sementes Livres de Aldeia Velha. Apartir do dia 17 de Junho até meados de Julho, toda quarta-feira acontecerá na Escola Municipalizada de Aldeia Velha, local aonde está situada a Casa das Sementes, um ciclo de palestras e oficinas culminando, no dia 18 de Julho, com a saborosa Festa da Roça, momento de consolidação de um sonho em realidade. E o início de uma nova relação entre nós e o mundo que nos rodeia!!


Ass.: Passarinho da Horta da Escola de Aldeia Velha.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

A Rede BioSócioRegional do Estado do Rio de Janeiro





Com base em muito esforço e dedicação, ao longo deste ano e do ano passado, foi se desenvolvendo os elos da Rede BioSócioRegional Rio de Janeiro.
No ano passado foram realizados diversos encontros periódicos, seguindo os ciclos da lua cheia, onde o foco era o trabalho com a terra e a troca cultural e espiritual entre os membros deste grande organismo coletivo.
Muitas canções foram aprendidas, muitas rodas foram realizadas. Celebrações, rituais mágicos de cura, abraços coletivos, orações... tudo completando uma imensa alegoria de sons e sentimentos, banhada no amor do trabalho com a Terra.
Assim completou-se um ano. Nasceu um pequenino bebê. A agroecologia nos guiou desde o princípio. Orientando nossos pensamentos e atitudes em coerência divina com todas as forças e energias da natureza.
Passado esse ano, nossa rede se tornou cada vez mais coerente com o contexto da sociedade global onde a remediação ambiental se faz urgentemente necessária. Atraindo cada vez mais pessoas, expandindo-se em sua fluídez, a BioSócioRegional juntou uma grande família dispersa nos diversos recantos do Estado.




Neste primeiro encontro do ano de 2009, realizado no Quilombo São José junto a Festa dos Pretos Velhos, os diversos atores da rede puderam interagir com os remanescentes de quilombolas, guardiães de um sagrado vale iluminado e de uma esplendorosa cultura ancestral africana.



A troca entre a BioSócioRegional e a cultura quilombola não poderia ter sido mais harmônica. Ambos possuem uma intensa espiritualidade baseada em músicas de reverência aos poderes e as entidades da natureza.
Eis um tipo de encontro aonde todos saem ganhando. Fortalecendo a rede de cultura agroecológica do estado do Rio de Janeiro. E enchendo a alma de Luz, Alegria e Serenidade.
Alguns objetivos da Rede BioSócioRegional:
_Comer apenas alimentos agroecológicos, ou ao menos orgânicos (sem agrotóxico).
_Reduzir a produção de lixo. Considerando lixo aquilo que não pode servir pra nada.
_Difundir e fundiar a Agricultura Ecológica, realizando manejos das áreas escolhidas para os encontros de acordo com a época de cada.
_Fortalecer uma rede de atores interessados no desenvolvimento de um mundo ecologicamente sustentável, socialmente justo e culturalmente viável. Levando consigo os princípios de cooperação, amor mútuo e perdão universal.



Venha fazer parte você também da Rede BioSócioRegional Rio!! Fortaleça essa rede de cultura sustentável e espiritualidade pela Cura do planeta Terra, nosso Paraíso!!!
Em breve, aqui, notícias dos próximos encontros...
Até lá!

sábado, 18 de abril de 2009

Quilombo de Agroecologia

Diversos grupos tem se interessado atualmente pelo estudo de Agroecologia. Se trata de um modelo diferente de ocupação humana, que tem se desenvolvido muito nas últimas décadas, transformador das relações insustentáveis hoje estabelecidas entre o homem e a natureza que o envolve. Seu intuito é modificar a base da cadeia produtiva humana através da mudança do olhar e das perspectivas que possuem as populações agricultoras.

Ao invés do grande modelo monocultor, aonde o sitiante estabelece o cultivo de apenas um único alimento ao longo de grandes áreas, nos moldes agroecológicos, são manejados diferentes tipos de alimentos numa mesma área. Tendo por objetivo não só a produção de alimentos mas também o enriquecimento do solo e a regeneração da floresta produtiva, o sistema agroflorestal (SAF como é conhecido) procura manter-se em sintonia com os ciclos naturais que influenciam definitivamente o comportamento do cio das plantas.
A implantação de SAF’s representa, cada vez mais, as aspirações humanas por um sistema que seja ecológicamente sustentável, economicamente viável e influencie o despertar da sociedade para a harmonia que é viver de uma maneira auto-sustentável e ecologicamente correta.
Ao fazer sua própria agrofloresta, na sua casa, você poderá ter uma gama diversa de alimentos, com a certeza da qualidade orgânica na sua alimentação, sem que tenha que gastar dinheiro para isso. Além disso você contribui para a qualificação ambiental da Terra, criando uma área de regeneração de floresta nativa ao mesmo tempo em que mantém uma roça produtiva. Mantendo uma relação saudável com a terra, você certamente estará trabalhando também sua própria saúde interna, no corpo, na mente e no espírito.
Essa é a realidade que pode ser verificada, na prática, no Quilombo Campinho da Independência, em Paraty.

Através de projeto realizado pelo IDACO (instituto de desenvolvimento e ação comunitária) com apoio do PDA (Ministério do Meio Ambiente), são beneficiados as cerca de 120 famílias moradoras do Campinho e remanescentes de Quilombolas. Na comunidade já foram implantados cerca de 20.000 metros de SAF’s, apenas nos últimos cinco anos, da onde se pode colher café, inhame, juçara, banana, urucum entre outras árvores florestais que complementam um plantio predominantemente ocupado por milhares de Palmitos de Pupunha.

O plantio monta uma ‘sincronicidade de luz’, onde as espécies, em seus diferentes tamanhos e ciclos biológicos, podem se beneficiar mutuamente fortalecendo a biomassa concentrada na região. Manejo é a palavra chave da agroecologia. O plantio, realizado uma única vez, pode dar colheitas de elementos diversos, em diferentes épocas, durante muitos e muitos anos.

A criação e manutenção de um viveiro, no entanto, se torna fundamental para que se complete o ciclo: colheita, reprodução, novo plantio. Isso garante a continuidade e eterna sustentabilidade do sistema em seu carácter ambiental, produtivo e economico; dando aos moradores do Campinho da Independência a certeza de que deixarão para os seus filhos e netos um mundo muito mais puro, bonito e generoso.


Em breve, mais uma edição da Revista ECOS, Ecologia Sustentável, estará disponível em formato audiovisual (ebook) no link SementesCaboclas, na coluna ao lado. Não perca!

terça-feira, 10 de março de 2009

O Grito de Gaia



Do coração da Terra surge um grito silencioso. Sutil como um assobio. Um canto fino que atinge a todos os corações com uma força impressionante. Este é o grito de Gaya, nossa nave mãe Terra, chamando todos os seres humanos para despertarem sob as sombras da escuridão.
Não mais podemos continuar a ofender e destratar nossa mãe. Não há mais tempo a perder. Vivemos séculos, talvez milênios, descuidados, venerando ao pai, à patria, e a um velho sistema patriarcal. Sistema que se distanciou da harmonia profunda que a mãe natureza sustenta sobre nós, se desvencilhou dos ciclos naturais que devem ser respeitados como a nossa própria vida.
A Amazônia, hoje “pulmão do mundo”, sofre com esse desencontro entre o ‘desenvolvimento’ e a ‘sustentabilidade’. A busca de um equilíbrio tem despertado a atenção de estudiosos e cientístas. Mas, até agora, o que tem sido feito sobre isso?
Por enquanto, não muito. O que vemos é a expansão devastadora de um processo que, há séculos, vem destruindo a Amazônia. A expansão de empresas mineradoras e madeireiras que, ao chegarem em pequenas cidades, aliciam os moradores a mudarem o seu modo de vida e se empregarem na extração dos recursos naturais da floresta com a garantia de um futuro vistoso para si e sua família.
Porém, em poucos anos, esgotada a extração do minério (bauxita), ou da madeira, as empresas vão embora deixando rios poluídos (em geral com mercúrio, que causa doenças graves, como o cancêr por exemplo) florestas devastadas e uma população que perdeu, junto com as riquezas naturais, seu modo de vida tradicional, saudável e sustentável.
Isso está acontecendo, agora, na Amazônia, em lugares importantes como o Rio Tapajós e a cidade de Juruti, na margem do Rio Amazonas, onde a população local tenta resistir (impotentemente) à força das grandes empresas.
Há também muitos casos de barragens que estão sendo construídas por hidroelétricas que alagam grandes áreas da floresta, onde ocasionalmente habitam povos indígenas e populações ribeirinhas, que são obrigados a abandonar suas terras.
Sem ter aonde ir, muitos deles acabam migrando para a zona periférica de grandes cidades, onde não se adaptam perfeitamente (por terem um modo de vida diferente e conhecimentos que não são valorizados nas cidades) e acabam por inflar as regiões suburbanas que não possuem condições higiênicas e sociais para uma vida saudável.
Como se não bastassem esses processos que agora acomentem o Norte (e talvez o restante) do país, os agricultores que não perderam suas terras por enchentes ou desastres poluentes, tem optado por abandonar a agricultura e investir na pecuária como meio mais rentável de vida.
Assim, em regiões não adequadas, como às margens dos rios por exemplo, vemos as florestas nativas sumindo e dando lugar a pastagens. Isso, além de ajudar na extinção de animais originários da floresta, vem ajudando o açoreamento dos rios, que junto com as florestas, são fundamentais na conservação da biodiversidade e da temperatura agradável do nosso planeta.
Me parece que estamos no limiar, extremamente tênue, de uma era da humanidade. Se continuarmos assim, descuidados com relação a harmonia da natureza, em poucos anos mudanças drásticas irão acontecer no planeta e mudarão, definitivamente, a história da humanidade neste pequena planeta Terra.
Precisamos refletir nossas ações, e para além das palavras, transformar nossas atitudes em ações corretas. Precisamos ouvir o silencioso e profundo grito de Gaya. A Terra chama por seus filhos!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

FSM 2009

Não se pode dizer exatamente que o Fórum Social Mundial se trata de uma proposta de ecologia e sustentabilidade. O FSM é um encontro (atualmente bi-anual) de ativistas sociais e ambientais que tem como proposta discutir os objetivos presentes na Agenda 21 e sua implementação em contraponto aos desmandos do capital internacional. Os objetivos de uma sociedade justa e de uma economia ecologicamente viável são duas vertentes preponderantes do Fórum.
No entanto, os discursos politizados encontram ecos muito mais na teoria do que na prática. O FSM produz tantos resíduos sólidos quanto qualquer outro evento de grande porte. A juventude revolucionária muitas vezes confunde o espaço do fórum; espaço de realizações, de exposições de idéias, de formação de redes; com uma colônia de férias. Local que se vai para se divertir e paquerar.
Não que a diversão esteja proibida, mas está longe de ser um dos objetivos do fórum.
Dentre todos os grupos atuantes, o espaço da Aldeia da Paz se destaca por sua peculiaridade realista. O uso de banheiros secos, em contraponto aos banheiros químicos dispersos pelos ambientes do fórum, a compostagem de resíduos orgânicos facilitando a reciclagem dos resíduos sólidos (vidro, plástico, etc) já reduzidos e muitas vezes reutilizados, são exemplos verdadeiros de uma revolução socioambiental. Isso sem falar nas meditações coletivas que alimentam a alma antes de cada refeição.
Se, como Gandhi disse: "Devemos ser em nós a mudança que queremos pro mundo." O FSM somente se tornará um encontro real de ativistas quando sua proposta for alterada na essência.
Por enquanto, resta esperar que as sementes plantadas por pessoas do mundo todo no FSM 2009, cresçam e se tornem as imensas florestas do futuro.
Paz e Luz!

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Canaã e a Escola da Mata Atlântica

“Uma nova raça, que seria a incógnita feliz do amor de todas as outras, que repovoaria o mundo e sobre a qual se fundaria a cidade aberta e universal.”
Canaã, Graça Aranha, 1902

Foi no mês de outubro do ano de 2005, que um grupo de jovens; em sua maioria universitários em fase de conclusão de curso, habitantes da cidade do Rio de Janeiro; em busca de novas perspectivas para a vida e para a humanidade no principiar de um terceiro milênio, partiu em busca de sua terra prometida, numa pequena Aldeia Velha, onde fundaram uma comunidade: Canaã.
Em Canaã conviviam em paz e comunhão todos aqueles jovens da modernidade, primeiros herdeiros da era digital. Provenientes de todas as etnias, judeus, árabes, negros, orientais, indígenas… resultado de um século de democracia racial, e unidos por um ideal comum: a necessidade de transformação da consciência planetária em vista das consequências dos desequilíbrios ecológicos e espirituais causados pela humanidade nos últimos séculos.
O objetivo de Canaã era o de apaziguar todos os conflitos, reconhecendo em todos os seres humanos a possibilidade da comunhão, da irmandade. E viver em comunhão não só entre si, mas com todos os seres e com as lições que se pode tirar dos ensinamentos da Natureza.
Lançada a semente, em poucos meses já se podia ver os frutos e o poder da organização coletiva. Em janeiro de 2006, germinou uma idéia que viria a identificar melhor para a sociedade a idéia que Canaã buscava passar. Foi fundada a Escola da Mata Atlântica (EMA).
Com a consciência de que a educação é importante tanto para a transformação, quanto para a reprodução do sistema social, a EMA tinha por objetivo reconhecer os diversos saberes construídos a partir da relação que o homem do campo mantém com o meio-ambiente, relacionando-os com os saberes tradicionais e conteporâneos que têm se desenvolvido nas universidades. Desta maneira buscava ressaltar as implicâncias ambientais que poderiam ser notadas em cada micro-clima, constituindo uma espécie de saber específico para cada região.
Mesclando conhecimentos agroecológicos de diversas localidades da Mata Atlântica e de fora dela, trazendo ao povo do campo atra- ções culturais, dinâmicas teatrais, palestras, oficinas, etc. A EMA procura trazer a educação para fora da sala de aula, aproximando o educando do objeto de estudo e a vida cotidiana do conhecimento ensinado. E também, de outra forma, consolidando esse processo ao trazer o conhecimento do homem do campo para dentro da sala de aula.
Porém, ao estudar a história do modernismo e da literatura brasileira do início do século XX, descobri que essa história já havia sido contada, em outro tempo, com outras palavras, quando tudo era apenas a origem do que viria a ser depois.
Foi no ano de 1902 que Graça Aranha publicou o romance Canaã, uma pérola quase esquecida do pré-modernismo brasileiro. Apesar de Canaã não ter se tornado um clássico popular, a importância de Graça Aranha para o movimento modernista que viria é inegável. Tanto que ele foi escolhido como patrono da Semana de Arte Moderna de 1922, proferindo o seu discurso de abertura.
Mas o que esta obra clássica, esquecida na literatura brasileira, contribuiu de fato para a cultura nacional?
O romance Canaã marca um nascimento. Um prenúncio do que o pensamento brasileiro consagraria quase três décadas mais tarde. O nascimento do pensar miscigenado brasileiro. Canaã clamava por um Brasil original, que abandonasse suas vãs heranças européias, inúteis a realidade tropical; onde uma nova raça deveria nascer, mistura de todas as outras, da onde floresceria uma nova sociedade tropical, aberta e Universal.
Pouco mais de vinte anos depois, este pensar se consolidou com o Manifesto Pau-Brasil, com o Modernismo, e mais adiante com a Antropofagia e com a república nova de Getúlio Vargas.
Era o início do caminhar brasileiro na busca de si mesmo. Do Brasil da democracia racial, da igualdade de oportunidades, do respeito às etnias. Do Brasil colorido. Do Brasil que buscava uma genuína cultura tropical da floresta, sem perder de vista as escolas de pensamento européias.
Nessa perspectiva que, Oswald de Andrade teoriza, no manifesto Pau-Brasil, sobre uma escola da floresta tropical. E assim, termina ele o trabalho iniciado por Graça Aranha:

“O trabalho da geração futurista foi ciclópico. Acertar o relógio império da literatura nacional. Realizada essa etapa, o problema é outro. Ser regional e puro em sua época.
O contrapeso da originalidade nativa para inutilizar a adesão acadêmica. A reação contra todas as indigestões de sabedoria. O melhor de nossa tradição lírica. O melhor de nossa demonstração moderna.”

(OSWALD DE ANDRADE, Correio da Manhã, março 1924.)

A Escola da Mata Atlântica, e a comunidade Canaã do século XXI, nasceram com a marca da conservação ambiental como forma da juventude de hoje de olhar adiante. Num futuro onde precisaremos nos reeducar enquanto seres humanos, buscando conciliar os avanços da tecnologia e as características renováveis da Natureza. Onde devemos buscar a compreensão entre as diferentes crenças, culturas e etnias, sempre com o objetivo de trazer a paz e uma maior consciência para a vida de todos.
A EMA procura, cada vez mais, inserir os saberes do povo da terra nos catálogos e categorias acadêmicas, para criar um Brasil novo, de braços abertos para o século XXI. Para criar um Brasil bem brasileiro, feito pelas mãos e marcado pelos olhos do povo original destas terras.